Freguesia de Miranda do Corvo
  
                               
 
Quanto à origem do topónimo, não se acertam as versões. Segundo Leite de Vasconcelos, derivará o nome do gerúndio do verbo "mirare"... (admirar)... "miranda" -- "que deve ser admirada, digna de admiração, designação essa que teria sido sugerida pela paisagem circundante".
Para este autor, "(...) passou do mesmo adjectivo (mirandus, a, um) para o latim rústico a forma neutra do plural, substantivada e tornada singular e feminina, fenómeno muito vulgar em romanço e de que dão testemunho quanto ao nosso caso a provençal e o catalão "miranda", respectivamente no sentido de "tour de guet" e “atalaya".
Devemos admitir sem nenhuma perplexidade que na região a que hoje corresponde Miranda existiu também, em épocas remotas, o substantivo miranda, com a acepção de "miradouro" ou, talvez melhor, de "torre de vigia", o qual saiu do uso vulgar e ficou apenas estereotipado na toponímia".
Para José Pedro Machado. "a origem está verdade, no latim "miranda", mas
aguarda-se uma palavra decisiva a respeito do seu significado. (...)
O referido miranda pode representar aceitação adaptação de forma pré-romana, talvez mesmo pré-céltica, composta de `mir-. mil-, miil-" (outeito, monte); quanto à segunda parte (aquele-anda), será presente em "Arnada" e "Pinharanda" (em espathol, Penaranda): o celta "randa" (limite extremo).
Também o Dicionário de Étimos Históricos remete para o étimo árabe “mirandum” a  origem do nome de Miranda, que até ao terceiro quartel do século XVI se designava "dapar" de Coimbra ou "dapar' de Podentes, altura em que começou a chamar-se do Corvo, povoação próxima, ao tempo muito importante por ser centro de estalagem e mudas de cavalos na estrada real. 
 
FORAL
O primeiro foral de Miranda do Corvo data de 1136, pela mão de Afonso Henriques, ainda príncipe do Condado Portucalense. O documento continha normas de convivência e regulamentava os tributos e as garantias dos cidadãos, baseando-se no direito de defesa pessoal ou colectiva, na solidariedade municipal e na própria força. A carta de foral foi atribuída à vila, mas a concessão passou por um casal de moradores, Uzberto e Marina, havendo por testemunhas do facto elementos da comunidade perfeitamente identificadas pelo próprio documento. Foral Manuelino de Miranda do Corvo, escrita no fim do texto, depois da data da concessão do Foral, com letra diferente à do contexto e que, por isso, nos parece um acrescento; é, todavia, da mesma altura porque vem assinado por Fernão de Pina e confirmado por El-Rei. Também pudemos verificar que a Miranda da par de Podentes (ou do Corvo) foi concedido Foral Antigo em 1136, por Alfonsus Portugalensium princeps comitis Henrici et regine Tharasie fihius (Afonso Henriques). A importância estratégica de Miranda foi reconhecida pelo monarca que decidiu reconstruir o castelo, arrasado vinte anos antes pelas tropas sarracenas.
 
ARQUITETURA CIVIL
As ruas e as casas antigas: em Miranda do Corvo subsistem algumas casas centenárias pertencentes a famílias tradicionais, embora modificadas ou em ruínas. Na rua da Sra. da Conceição – provavelmente a mais antiga rua da vila -, entre a igreja da Sra. da Boa Morte e a Matriz, vê-se uma casa térrea e incaracterística, do séc. XIX, com um pequeno nicho e imagem daquela titular, que representa o Antigo Hospital de Nossa Senhora da Conceição.
Quer o Hospital da Sra. da Conceição, quer a albergaria inclusa, foram fundados certamente no segundo quartel do séc. XVI. Estas duas instituições nasceram de iniciativa particular. Tiveram como corpo directivo a Confraria Leiga da Sra. do Rosário que deveria andar dentro da influência da Casa de Arronches.
Quanto à albergaria, Miranda era atravessada por uma estrada que vinha dos altos de Chão de Lamas – onde cruzava com a estrada Coimbra-Podentes – e seguia para a Lousã, juntando-se na vizinha povoação do Corvo, com a estrada real que, vinda de Lisboa, atravessava o concelho desde a Sandoeira ao Padrão e seguia por Foz de Arouce para a Mucela e daqui para a Beira Alta. Miranda era pois ponto de passagem forçada da Estremadura para a Beira.
Do Hospital subsistem mais elementos pois esses viajantes vinham muitas vezes doentes e o obituário da freguesia dá conta dos muitos que não resistiram, sendo depois enterrados no adro em frente à actual Boa Morte. Crava-se aqui na frontaria da casa beneficente.
 
SURGIMENTO DA CHANFANA
A Chanfana teria surgido no Mosteiro de Semide, instituição religiosa pertencente actualmente à nossa freguesia de Semide, generalizando-se o seu consumo após a 3ª Invasão Francesa, apoiada numa região com tradição na produção vinícola e com uma indústria de transformação de barro ancestral. 
Até finais do séc. XIX, todos os agricultores e rendeiros eram obrigados ao pagamento dos foros. Muitos dos moradores, porque eram pastores, pagavam com cabras e ovelhas. Os foreiros libertavam-se dos animais mais velhos que já não lhes davam leite nem se reproduziam. Ora, como as freiras não tinham disponibilidade nem meios para manter tão grande rebanho, descobriram uma fórmula para cozinhar e conservar a respectiva carne, aproveitando o vinho que lhes era entregue pelos rendeiros, o louro que tinham na sua quinta, bem como os alhos e demais ingredientes. 
Surge, assim, a Chanfana que era religiosamente guardada, ao longo do ano, nas caves frescas do mosteiro. A carne assada no vinho mantinha-se no molho gorduroso solidificado, durante largos meses. É inegável, em termos históricos, a contribuição das ordens religiosos no aparecimento de muita da nossa gastronomia. Basta lembrarmo-nos da doçaria conventual. 
O vinho tinto utilizado era de grande qualidade, pois só assim a carne ficaria mais tenra. Não se pode deixar de associar a utilização deste líquido ao facto do concelho de Miranda do Corvo, nomeadamente a freguesia de Lamas, onde o Mosteiro possuía inúmeros coutos, ser conhecida pela qualidade do seu vinho tinto “carrascão”, ainda hoje produzido em abundância. 
Durante a terceira Invasão Francesa, as freiras terão divulgado esta fórmula gastronómica, devido a necessidades imperiosas da própria conjuntura histórica, concretamente, para evitar que os soldados franceses roubassem as cabras e as ovelhas da região. 
Diz-se, então, que quando as tropas francesas circularam pela região de Miranda do Corvo, a população envenenou as águas para matar os franceses. Mas, como era necessário cozinhar a carne habitualmente consumida, utilizou-se o vinho da região. 
A Chanfana é um prato típico do concelho de Miranda do Corvo, de onde cremos ser originária, que se expandiu praticamente por toda a região centro onde adquiriu várias nuances. É muito apreciada e servida em quase todos os restaurantes do nosso concelho. De salientar que constitui o prato «obrigatório» quando decorrem as festas religiosas anuais em Miranda do Corvo pelo S. Sebastião, em Janeiro, e é ainda hoje imprescindível na ementa dos casamentos, sendo como tal também chamada “Carne de Casamento”. 
Assim a gastronomia característica do concelho de Miranda do Corvo nasce com o modo de vida e criatividade das monjas do Mosteiro de Santa Maria de Semide, importante núcleo religioso e administrativo; no contexto político, social e económico da 3ª Invasão Francesa; condicionada pela presença de um complexo industrial de oleiros do barro vermelho e uma boa produção vinícola. 
Numa época em que as dificuldades económicas prevaleciam na maior parte da população, tudo tinha de ser minuciosamente aproveitado. Assim, com a carne temos a Chanfana; com o molho e as sobras, a Sopa de Casamento; com as peles (depois de limpas e secas ao sol) faziam-se os “foles” para levar os cereais aos moinhos e o azeite às feiras. 
Consta que também os Negalhos remontem a esse difícil período da época da terceira Invasão Francesa, em que as necessidades de sobrevivência e de miséria se acentuaram ainda mais. Estando a rarear a carne, porque os invasores franceses roubavam os rebanhos, a população teve de aproveitar tudo, inclusivamente as tripas dos animais cuja carne – preciosa e agora rara - utilizava na sua alimentação. Experimentaram, então, cozinhar as tripas segundo a receita da Chanfana e terá dado resultado. 
Há um factor extremamente importante para o sucesso destes pratos, que se prende com as condições de cozedura. Tanto a Chanfana, como os Negalhos são cozinhados em caçoilas de barro tapadas com folhas de couve. Neste concelho desenvolveu-se uma indústria artesanal de olaria de barro vermelho de que há notícias, pelo menos, desde o séc. XVI. 
O forno de lenha, elemento fundamental na cozedura da broa, é previamente aquecido e, depois de fechada a boca, deve ser vedado com barro. Como estes pratos apenas são consumidos no dia seguinte, devem ser mantidos no forno até à hora de serem servidos. Nessa altura o barro é picado para abrir a porta e a caçoila é retirada e colocada sobre as trempes junto à lareira para aquecer lentamente. 
Comia-se carne apenas em épocas especiais – festas, casamentos - e os legumes plantados em pequenas hortas, a par do pão, foram, desde sempre, os alimentos de maior consumo pela população portuguesa. Como tal o aproveitamento de um produto tão precioso como a carne tinha que ser total, evitando todo e qualquer desperdício. Assim, comida a Chanfana, com o molho faz-se a “Sopa de Casamento”. 
Era tradição dar aos convidados o almoço no dia seguinte ao casamento, e como já não havia carne suficiente, com o molho fazia-se a dita sopa e enfeitava-se com os restantes pedaços de carne. Trata-se de um aproveitamento óptimo do molho da chanfana, que nunca é totalmente consumido. Como é muito saboroso e rico, não só em gordura mas também nos sucos de carne, seria uma pena desperdiçá-lo. Tal como a Chanfana, este prato é cozinhado em recipiente de barro vermelho para depois ir ao forno apurar. A sopa acaba por ser o fechar do ciclo de aproveitamento da cabra. 


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